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Ao ouvir outras pessoas sobre suas alegrias, angústias e dúvidas quis compartilhar minhas impressões sobre esses momentos que vivencio no desejo de ser útil.

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domingo, 26 de dezembro de 2010

Você só me ensinou a te querer

Você só me ensinou a te querer

Composição: Fernando Mendes / José Wilson / Lucas

Não vejo mais você

Faz tanto tempo

Que vontade que eu sinto

De olhar em seus olhos

Ganhar seus abraços

É verdade eu não minto...

E nesse desespero

Em que me vejo

Já cheguei a tal ponto

De me trocar

Diversas vezes por você

Só prá ver se te encontro...

Você bem que podia perdoar

E só mais uma vez me aceitar

Prometo agora vou fazer por onde

Nunca mais perdê-la...

Agora

Que faço eu da vida sem você

Você não me ensinou a te esquecer

Você só me ensinou a te querer

E te querendo

Eu vou tentando te encontrar

Vou me perdendo

Buscando

Em outros braços seus abraços

Perdido no vazio

De outros passos

Do abismo em que você

Se retirou e me atirou

E me deixou aqui sozinho...



Introdução

Eu não gostaria e nem poderia deixar de registrar o que ouvi do Sr. Geruso. Nem poderia ignorar a emoção de que fui acometida por ouvi-lo por quatro horas seguidas.

Vou tentar passar não só as histórias de Seu Geruso, mas tentar imprimir a minha emoção o mais próximo do que senti e o que me foi contado.

Pode parecer longa a narrativa. Mas não quero omitir nada.

O que me atrai nessa história, ou nas muitas histórias dele, não é só a beleza contida nelas pelos seus gestos ao longo de sua vida. Mas o sentimento mais presente e onipotente: o AMOR, como ingrediente da vida plena.

Amor presente no servir ao outro incansavelmente até hoje.

O amor por sua mulher e filhos. O amor pelos seus pais e irmãos. O amor por sua terra, Parnaíba, Piauí.

Quem foi Seu Geruso? Por que eu quis escutá-lo novamente? E não me esquivaria de escutá-lo mais uma vez se preciso fosse. Para isso eu conto com uma característica muito própria dele e, talvez, pela própria idade, oitenta e nove anos. Seu Geruso gosta de falar muito.

Também, não pretendo passar para estas folhas um perfil frio e tal qual um retrato falado. Quero passar o encontro de minha alma com a de Seu Geruso em uma viagem que durou quatro horas. Não foi cansativa nem para mim nem para ele – ele mesmo atestou. Foi como se eu tivesse chegado à beira de um grande rio depois de uma longa caminhada, estando com muita sede e me pusesse a beber sofregamente aquela água aos meus pés.

Quanta beleza, quanto sentimento! Quanta dignidade!

-I-

Já sabia que iria encontrá-lo pela segunda vez.

Seu Geruso é pai de um amigo. Sérgio. Ele costuma vir visitar o filho aqui em São Paulo algumas vezes por ano. Nessa, ele foi intimado a vir para assistir a apresentação do filho, dançarino, num espetáculo em circuito paulista na cidade de Santana de Parnaíba.

Fiquei animada de revê-lo. Já o havia visto uma vez na casa de Sérgio nesse mesmo ano, mas eu o ouvi rapidamente. Ele contou-me sobre sua vida no Piauí, em Salvador e Belo Horizonte e sua vida com Nazinha, sua esposa, seu grande amor. Nesse encontro não consegui ficar muito tempo ouvindo-o, interrompi a conversa pela minha emoção.

Mas agora estava disposta a escutá-lo, estava mais forte emocionalmente e sabia o que iria encontrar nessa viagem a dois. Sentei-me de frente a ele, e num teatro vazio, os artistas e técnicos passando a luz e som, embarquei nesse trem da vida com Seu Geruso.

Incentivado por Sérgio ele começou a contar-me sobre os apelidos de amigos com que eram facilmente adotados pelas pessoas da Parnaíba.

― Pai, fala pra ela sobre os apelidos de seus amigos.

― Ah, não, filho. Isso é bobagem.

― Deixe disso, pai. Fala do Cara de Caneco Machucado. Por que ele tinha esse nome?

― Cara de Caneco Machucado trabalhava no Cine Teatro Eder fazendo grude.

Grude é uma cola preparada com maisena e água, feito um mingau. Ele usava o grude para colar os cartazes anunciando os filmes e as outras atrações. Ele tinha uma cara toda marcada como um caneco de ágata lascado pelo uso.

Na minha terra, meu filho, era assim, bastava um motivo besta qualquer e eles já arrumavam um apelido pra gente. Eu mesmo não quis fazer parte da banda da cidade porque com certeza iriam colocar um apelido em mim.

― E quem era o Maracujá de Gaveta?

― Esse coitado era um sujeito com a cara toda enrugada. Maracujá depois de uma semana na gaveta fica desse jeitinho. Ninguém tinha dó. Olhe, tinha cada apelido... Tinha o Zé Bostinha, esse, porque chegou na festa do clube com o sapato sujo de “caca” de cachorro; tinha o Doca Gaia...

―Doca Gaia? Que diabos é isso?

― Todo Raimundo no nordeste, Sérgio, tem o apelido de Doca. Gaia, porque ele falava pelo fone anunciando as coisas da loja lá da cidade.

― Megafone, o senhor quis dizer.

― Que megafone nada! Fone mesmo e muito gogó. Gritava muito. Foi o primeiro sujeito que vi que ganhou dinheiro com publicidade.

Seu Geruso foi se lembrando de cada um e se divertindo muito enquanto contava. Se lembrou de que foi o primeiro narrador de futebol de Parnaíba.

― Na minha cidade não tinha rádio ainda naquela época, década de 30. A rádio só chegou a Parnaíba graças a dois rapazes, Alcenor Madeira e Roberto Carvalho, filhos de famílias ricas que se encontraram depois de não terem feito muito de importante na vida e aí tiveram a ideia de levar uma rádio para a cidade.

A rádio se chamava PRKK Cirandinha Miudá. Nome de um lugarejo ao lado. A rádio tinha um alcance de uns 10 quilômetros de raio do centro da cidade. Não era muito, mas era uma grande novidade pra nós.

Certo dia atracou no porto de Tutoia, Ma, um navio inglês e o pessoal resolveu promover uma partida com alguns marinheiros e o time da nossa cidade. Queriam transmitir o jogo pelo rádio, mas se esbarraram com o fato de não ter um locutor. Um tio se lembrou que eu costumava ler o jornal para meu pai em voz alta como se estivesse narrando futebol. Meu pai, um pobre pedreiro, flamenguista, só recebia o jornal da capital do Rio de Janeiro, trinta dias depois. Eu tinha que ler a notícia do jogo.

Lá fui eu, que não tinha pretensão nenhuma em ser locutor para narrar o jogo. O dono da rádio foi avisando logo: Para termos o patrocínio você terá que falar direito o nome da empresa. Não é Panair. Mas Pan Air (pan er) Aviação.

Abriram um espaço perto da arquibancada e me instalaram.

Chamaram a banda local de 6 músicos que só tocava dobrado. Mestre Almir era o regente da banda e ficava de animar como um líder de torcida.

Eu, com meus 17 anos, fui o primeiro “speeker” fora da capital.

- II –

Comecei a trabalhar na Souza Cruz em Parnaíba aos 17 ou 18 anos. Comecei simples. Mas logo me convidaram para ser um distribuidor. Para isso eu tinha que fazer um investimento num lote de cigarros. Eu não tinha esse dinheiro todo. O meu chefe fechou um acordo comigo: colocaria a casa de meu pai em garantia e descontaria do meu salário uma parte para pagar o lote.

Na negociação ficou certo de que eu tinha como compromisso dar uma parte do meu dinheiro para meu pai, uma parte para meu irmão que estava estudando fora do Piauí e que queria muito ser engenheiro. Pra mim, podia ser pouco. Não tinha problema.

Negócio aceito, fui para a estrada fazer as vendas.

― E Dona Nazinha, Seu Geruso?

― Já estava começando o namoro com Nazinha. Naquela época nosso namoro era só de olhar. Não tinha esse negócio de pegar na mão ou beijo. Nazinha era uma moça muito miudinha. Bonita.

Mas a vida corria em paralelo. Eu queria coisa melhor. Um ano e meio se passou. Eu achava que naquela empresa eu não iria crescer mais. Cheguei para Nazinha e disse que iria embora tentar a vida em Recife a convite de meu irmão. Ele achou que eu também poderia estudar.

Fizemos um trato de que em dois anos eu voltaria e iriamos nos casar. Ela não botou muita fé nessa minha proposta, mas como não tinha como eu ficar... Eu estava decidido a ir.

Fui!

Cheguei em Recife e fui recebido por meu irmão um tanto desanimado.

― Não deu tempo de te avisar meu irmão, mas a coisa aqui está um pouco devagar.

Contei minhas economias e vi que por um tempo daria para nos arranjar. Ele poderia continuar os seus estudos que eu me arrumaria.

A verdade é que não estava em meu destino prosseguir com os estudos. Nunca quis ser engenheiro ou outra coisa desse gênero. Isso era sonho de meu irmão.

Fui para Salvador. Desanimado, porém, sem desistir, um dia, fiquei sabendo de uma oportunidade de trabalho. Me passaram o endereço e fui até lá. Em frente ao endereço uma fila enorme se formou ao longo da rua. Fiquei de longe olhando aquele movimento e como quem não quer nada, pois não estava muito interessado, fui ao balcão para saber do que se tratava o trabalho.

A primeira pessoa que encontrei para receber informação foi um senhor que havia morado por um tempo em Parnaíba. Ele ficou entusiasmado com a nossa conversa e me passou o endereço do escritório para ir me apresentar. O emprego era meu. Trabalharia na Empresa Aérea Cruzeiro do Sul, no escritório e logo em seguida passaria para o aeroporto.

Passou-se um ano e meio e eu estava esse tempo sem ter tirado as férias a que tinha direito.

― Geruso, pegue suas coisas correndo em casa e volte para pegar o voo para Parnaíba que sai daqui umas duas horas.

Me surpreendi, pois estava para ir em dois anos como marquei com Nazinha. Mas com as férias atrasadas poderia render multa para a companhia. Não adiantava regatear. Entrei no avião e parti. Não deu nem tempo de avisar em Parnaíba que eu estava indo.

Quando cheguei, deixei minhas coisas num local na cidade antes de me dirigir a minha casa. Encontrei um conhecido e perguntei por Nazinha. O amigo me informou que ela estava trabalhando na agência dos Correios. Nesse meio tempo ele também se encontrou com Nazinha e informou a ela que eu estava na cidade.

― Estranho... Geruso não me disse nada que viria. Marcamos só para daqui a dois anos. O que aconteceu?

Eu estava indo vê-la, quando nos encontramos no meio da praça. Só nos olhamos. Foi como o tempo tivesse parado para apenas nos olharmos. Pareceu-me uma eternidade. Não nos beijamos, nem nada. Só olhamo-nos. De repente ela falou como se tivesse saído de um sonho.

― Geruso, você disse que ia voltar e cumpriu sua palavra. Você voltou.

― Eu não disse que ia voltar?

Estávamos meio abobados diante um do outro. Fomos caminhando em direção à casa dos pais dela. Estava disposto a conversar para acertarmos os detalhes do casamento. A conversa com o pai de Nazinha foi sobre tudo, meu trabalho, a vida em Salvador e enfim, sobre o casamento. Mas não de maneira formal. Tratamos naturalmente sobre a data e tudo o mais.

― Quero casar-me com Nazinha no dia do aniversário dela. Dia 12 de junho. Ano que vem (1949) volto para nos casarmos.

― Geruso, antes de irmos para sua casa quero passar na casa de uns amigos que sempre foram bons para mim. Como forma de agradecimento quero lhes comunicar em primeira mão o nosso casamento.

Assim foi feito. E após a troca de notícias fomos para minha casa. Todos ficaram surpresos pela minha presença tão repentina em Parnaíba. Mas logo entenderam tudo e puderam participar da minha alegria e da de Nazinha.

Fiquei uns vinte dias em Parnaíba. Peguei o voo de volta para Salvador rumo ao meu trabalho. Tinha que começar a preparar a chegada dela para daqui um tempo.



-III-

Quase um ano se passou.

Pedi licença para ir me casar e tirei as minhas férias.

Peguei um voo para Parnaíba.

Nazinha queria casar numa igrejinha simples da cidade. Tudo já estava arrumado.

O casamento civil, por concessão de um amigo juiz de paz , foi realizado no período da tarde após a cerimônia religiosa, na igreja, na casa de amigos de Nazinha.

Isso não era comum naquela época. Mas foi um presente para nós.

Quando acabou a cerimônia, Nazinha trocou-se e fomos para o aeroporto.

Ela estava linda. Eu não parava de olhá-la. Dentro do avião todos já haviam sido informados que se tratava de um casal recém-casado. Aplaudiram todos quando entramos no avião.

Eu e Nazinha fomos sentados lado a lado segurando a mão um do outro. E eu não me cansava de olhar para ela.

― Geruso, por que você me olha tanto assim?

― Escute, Nazinha, eu estou surpreso, como uma moça, como você, que nunca saiu de Parnaíba, agora, casa-se com um homem que você mal conhece, se muda para um lugar estranho, deixando a sua família? Você poderia estar preocupada se eu serei um bom homem para você.

― Geruso, preciso lhe falar algo que nunca tive oportunidade de conversar com você... Eu te conheço desde quando éramos crianças. Eu tinha cinco anos e você dez. Você era amigo de meu irmão e costumava ir brincar com ele em minha casa. Eu ficava com os olhinhos compridos só para você. Depois nos encontramos, rapidamente, eu uma adolescente e você já rapazinho. Eu já sentia alguma coisa por você. Mas você, Geruso, ainda não tinha olhos para mim. Meu coração já dizia que você era uma pessoa de bem. E eu nunca duvidei disso. Eu confio em você.

Essa conversa foi como se naquele momento nossos corações se entregassem, enfim. Aquela era a minha mulher.

A caminho de Salvador o voo fazia escala em Fortaleza. Fomos convidados pela tripulação a ficarmos no mesmo hotel.

― Mas como vamos ficar neste hotel com uma diária tão cara? Não tenho condições de pagar por essa hospedagem!

― Seu Geruso, fique tranquilo. É um presente da companhia para o jovem casal.

Ficamos num hotel na Praça do Ferreira. À noite fomos, também, convidados para um jantar oferecido pela companhia. Tudo foi organizado para brindar ao casal recém-casado.

Após o jantar, subimos para o quarto. Nazinha confessou-me que tinha um sonho em assistir a um programa de rádio. A Rádio de Fortaleza era logo ali em frente ao hotel. Rumamos para a rádio a fim de assistirmos um programa. Para nossa surpresa estava se apresentando um cantor já conhecido no nordeste. Nazinha ficou extasiada.

― Mas Seu Geruso e a noite de núpcias? Dona Nazinha estava nervosa?

― Que nada, minha filha! Antes de irmos para a Rádio, subimos ao quarto do hotel. Como tínhamos ainda uma hora... Foram as prévias. Abraçamo-nos tanto que sua roupa de linho se amassou toda. O resto foi na volta da Rádio. Ali naquela hora fizemos nossa primeira filha. Regina.

Esse detalhe tão delicado de uma vida longa de amor, lealdade e dedicação deixou-me muito emocionada. Estava ali a escutá-lo e imaginando essa vida de muita dignidade e que a muitos falta essa virtude. Quantos não se enriqueceriam apenas em ouvi-lo narrar sua história de vida! Quem dera eu pudesse ter a memória de Seu Geruso para reproduzir nessas páginas tantos detalhes a mim relatados. A emoção, por mais que eu tenha me contido, tirou de minha mente e levou para meu coração essa história. E coração é apenas um lugar de sentimentos e não de palavras.

-IV-

Nove meses depois nasceu Regina. Foi muita alegria ter uma filhinha. Nazinha sempre foi uma ótima mãe.

Mas infelizmente, depois de certo tempo, Regina com poucos meses não ia muito bem. Não ganhava peso. Sempre quietinha. Já havíamos ido ao médico e nada de descobrirem o problema. Nazinha preocupada com a menina que estava sempre molinha decidiu que iria para o Parnaíba ficar um tempo na casa da mãe.

Liguei para o gerente da companhia, responsável pela emissão de passagens, pedindo para conseguir uma tão logo fosse possível, para as duas viajarem. Ele imediatamente tomou a decisão de enviar-me, também, convencendo-me que era importante a minha ida. Eu já era gerente de aeroporto, mas não podia me afastar assim de forma sem avisar com antecedência o meu chefe.

― Geruso, de jeito nenhum você vai deixar as duas irem sós. Ligue avisando em casa que um voo parte daqui a pouco e que você irá junto. Eu resolvo isso.

Peguei Nazinha e minha filha em casa e fomos logo para o aeroporto. Mais uma vez voltava de forma abrupta sem avisar a família no Piauí.

Na casa da mãe de Nazinha foi muito tranquilo, pois logo sua mãe tratou de alimentar com papinhas feitas por ela, nossa filha. A menininha ganhou peso em poucos dias; Nazinha já não estava conseguindo alimentá-la só no peito e não conseguia entender o que estava acontecendo. Precisou sua mãe bater o olho e desvendar o mistério da fraqueza da nossa filhinha.

Depois de alguns dias eu precisava voltar. Decidi que Nazinha e Regina ficariam por um tempo em Parnaíba.

― Geruso, de jeito nenhum. Não deixarei você voltar sozinho para Salvador. Iremos juntos! Nossa filha já está bem melhor e agora sei como fazer.

― Então vamos, porque preciso voltar ao trabalho.

A nossa vida ia bem, mas percebi que Nazinha estava ficando triste, amuada. Ela ficava muito tempo sozinha, em casa, com a criança.

Como ela falava muito com sua mãe por telefone e contava sobre sua vida, minha sogra, preocupada, me ligou. Concluiu que o remédio era trazer a irmã de Nazinha. Seria bom para fazer companhia e ajudá-la em casa e com Regina.

Foi uma filha que acolhi. Fui responsável pelos seus estudos e por tudo o mais. Nazinha agora estava feliz. A família estava aumentando.

Logo depois minha mãe ligou:

― Olhe, Geruso, fiquei sabendo que Lurdes está de malas prontas se preparando para ir morar com vocês também.

Chegou Lurdes para ficar o resto de sua vida conosco.

O tempo passou. Já tínhamos mais dois filhos.

Casa cheia, família grande, embora eu sendo muito jovem, conseguia sustentar essa família. Tudo era por minha conta.

― Como é diferente nos dias de hoje, heim, Seu Geruso?

― Eu sempre cuidei de muita gente. Antes de me mudar para Belo Horizonte, recebi um sobrinho para morar comigo com o fim de estudar em Salvador. Minha vida sempre foi assim. Abrindo as portas da minha casa e ajudando como podia.

― E abrindo as portas do coração, não é, Seu Geruso? Mas continue, por favor.

Mais alguns anos se passaram em nossas vidas. Nazinha não engravidava mais. Não entendíamos o porquê. Os médicos não descobriam a causa. Foram feitos exames, mas não acusou nada de anormal.

― Geruso, quando tiver que ser, Deus irá mandar um filho para nós.

Exatamente depois de sete anos nasceu a segunda leva de filhos. Tivemos mais três. Sérgio o mais velho deles.

Aí, eu começava a me preocupar por Nazinha.

― Nazinha, minha filha, acho que você deveria ir a um médico para ver como fazer para não ter mais filhos. Quem sabe tomar algum remédio ou outra coisa? Você já está numa idade que não é bom ter mais filhos. Pode prejudicar sua saúde.

― Geruso, quando Deus quiser não teremos mais.

E realmente foi como Deus queria. Deus dono de nossos destinos e Nazinha dona de meu coração. Não tivemos mais filhos.

Nesse tempo eu viajava muito a trabalho como topógrafo para uma empresa. Fazia medições pelo Brasil para a empresa avaliar o local da construção de hidrelétricas.

Nazinha me acompanhava sempre nas viagens. E sempre levávamos o Sérgio.

Ele próprio e os irmãos o consideram o meu filho predileto.

― E ele é, Seu Geruso?

Seu Geruso deu um sorrisinho de lado e continuou a história.

Depois de um tempo nos mudamos para Belo Horizonte. A irmã de Nazinha, já formada ficou em Salvador.

Lurdes Seguiu conosco.

Você acha que estava encerrada a família? Agora veio morar minha mãe. Ela já estava um pouco adoentada.

-V-

Nesse momento, Seu Geruso um pouco emocionado lembrou-se da música que escuta sempre de Caetano.

Depois de um certo tempo, os filhos criados, alguns casados, Nazinha começou a apresentar sinais de Alzheimer. Eu não havia reparado até uma sobrinha me atentar para a conversa que tivera com ela.

E a ausência foi aumentando.

Minha alegria era vê-la comer goiabada que eu mesmo preparava, colocando um pouco de água para amolecer e dava de colherinha na boca de Nazinha.

Sua irmã também começou com os sintomas de Alzheimer. Eu já não dormia muito. Arrumei no quarto três camas e dormia entre as duas. Às vezes Lurdes chorava e por medo segurava as minhas mãos. Eu dormia assim. Com os olhos abertos.

Os médicos não acreditavam que Nazinha se comunicava comigo, mas meu coração sentia que ela reagia quando eu ia trocá-la.

Lourdes foi-se embora primeiro e logo depois foi Nazinha. Dia 24 de março de 2007.

Tenho seguido minha vida assim. Cuidando dos outros. As pessoas precisam entender, principalmente a família que uns devem ajudar aos outros.

Eu tenho algumas “bicicletas” que eu cuido. Mas isso é uma outra história.

Eu não podia me conter ao final de tantas histórias contadas por Seu Geruso. De forma simples, nada forçada, as palavras iam sendo ditas para mim. Ele sabia que eu prestava atenção e por isso não me poupou detalhes.

Me aproveitei dessa característica dele de conversar bastante e de contar histórias. Acho que ele aprimorou-se indo morar pelas bandas de Minas Gerais. Fui beneficiada pela sua estupenda memória. Reproduzir aqui o que ouvi e senti foi como se revivesse a emoção enquanto estive em sua presença.

Pode parecer banal ao contar uma parte da história de Seu Geruso. Talvez não tenha conseguido passar essa emoção que me propus a passar. Mas também não podia deixá-la guardada dentro de mim.
Talvez não toque o coração de quem a lê, pois como disse antes, as palavras não moram no coração do homem.






















Braga, socorro!!!

Braga,
Vamos ver se você poderá me ajudar.
Estou aqui em minha casa na correria tanto dos afazeres domésticos quanto de trabalhos esporádicos no mundo cultural.
Já descobri que a minha válvula de escape é a arte da escrita. Brincar com as palavras é como se estivesse brincando de três marias quando criança. Cada pedrinha lançada para cima e depois pega no ar com as mãos são palavras que meu coração joga ao vento e minha mente capta para por no papel. Nesse brincar vou me recompondo, me esvaziando e, enfim, me equilibrando.
Você pode pensar, aliás, com certeza não vai pensar diferente disso, mas o ato de criar e reproduzir o que criamos é um exercício de esvaziamento como numa represa que precisamos dar vazão quando as águas atingem certo nível de represamento.
A minha saúde mental depende desse precesso todo.
E devo confessar, Braga, quando o leio, me abasteço, e aí tenho que correr para abrir as comportas da alma. Colocar todas as palavras no papel e depois...Bem, depois é seguir colhendo pedrinhas jogadas para o alto.
O problema, Braga, é que as tarefas do dia a dia vão nos engolfando, nos emaranhando de tal forma que não conseguimos nos desvencilhar logo e fazer aquilo que nos restaura a saúde mental.
Cheguei ao limite. Vou ter que abrir as comportas hoje. Me dei esse ultimato. E conto com você. Com a sua verve que tanto me inspira.
É... cada coisa em seu lugar. Inclusive o que está dentro de minha caixola. Porque à medida em que as palavras vão sendo colocadas no papel vou me sentindo mais leve e o pensamento não encontra emprecilhos para continuar fazendo suas conexões. Que às vezes podem não parecer tão inteligentes mas ventilam a circulação de ideias.
Eu costumo dizer, Braga, que sou uma de suas viúvas. Que por herança você deixou-me suas crônicas. Não sei se você foi bom marido, mas como finado marido tem sido um consolo e inspiração.
Ao receber essa carta, de onde estiver, venha em meu socorro. Transmita-me um pouco de sua poesia, pois o mundo está me deixando triste com sua pouca delicadeza no trato com as pessoas.
Depois, você pode ir se dedicar às suas outras viúvas. Não sou ciumenta. Bom, assim eu acho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Pelo coração eu vou


Meu coração sabe o seu lugar.
O lugar de quem anseia por amar.
Amar no movimento dos céus e mares.
Amor que flui e reflui.
Meu coração não está partido.
Está compartilhado com todas as gentes.
Outro dia se tornou o presente.
E eu me descobri desejando viver intensamente.
Ele palpitava chamando-me baixinho para o acompanhar.
Encontrei iguais ao meu.
Às vezes atropelei, às vezes esperei.
Sentada jamais fiquei.
Busquei aonde tinha o conforto.
Mas não recusei o andar difícil e alternado.
Caminhei com ele, por ele e por todos.
Regenerei-me por ele nas lutas do dia a dia.
E soube escutá-lo.
Agora ele sorri à chegada dos bons ventos.
Novos rumos, novos caminhos.