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Ao ouvir outras pessoas sobre suas alegrias, angústias e dúvidas quis compartilhar minhas impressões sobre esses momentos que vivencio no desejo de ser útil.

Ao lê-las, comente-as. Deixe sua ideia, sua impressão.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Você só me ensinou a te querer

Você só me ensinou a te querer

Composição: Fernando Mendes / José Wilson / Lucas

Não vejo mais você

Faz tanto tempo

Que vontade que eu sinto

De olhar em seus olhos

Ganhar seus abraços

É verdade eu não minto...

E nesse desespero

Em que me vejo

Já cheguei a tal ponto

De me trocar

Diversas vezes por você

Só prá ver se te encontro...

Você bem que podia perdoar

E só mais uma vez me aceitar

Prometo agora vou fazer por onde

Nunca mais perdê-la...

Agora

Que faço eu da vida sem você

Você não me ensinou a te esquecer

Você só me ensinou a te querer

E te querendo

Eu vou tentando te encontrar

Vou me perdendo

Buscando

Em outros braços seus abraços

Perdido no vazio

De outros passos

Do abismo em que você

Se retirou e me atirou

E me deixou aqui sozinho...



Introdução

Eu não gostaria e nem poderia deixar de registrar o que ouvi do Sr. Geruso. Nem poderia ignorar a emoção de que fui acometida por ouvi-lo por quatro horas seguidas.

Vou tentar passar não só as histórias de Seu Geruso, mas tentar imprimir a minha emoção o mais próximo do que senti e o que me foi contado.

Pode parecer longa a narrativa. Mas não quero omitir nada.

O que me atrai nessa história, ou nas muitas histórias dele, não é só a beleza contida nelas pelos seus gestos ao longo de sua vida. Mas o sentimento mais presente e onipotente: o AMOR, como ingrediente da vida plena.

Amor presente no servir ao outro incansavelmente até hoje.

O amor por sua mulher e filhos. O amor pelos seus pais e irmãos. O amor por sua terra, Parnaíba, Piauí.

Quem foi Seu Geruso? Por que eu quis escutá-lo novamente? E não me esquivaria de escutá-lo mais uma vez se preciso fosse. Para isso eu conto com uma característica muito própria dele e, talvez, pela própria idade, oitenta e nove anos. Seu Geruso gosta de falar muito.

Também, não pretendo passar para estas folhas um perfil frio e tal qual um retrato falado. Quero passar o encontro de minha alma com a de Seu Geruso em uma viagem que durou quatro horas. Não foi cansativa nem para mim nem para ele – ele mesmo atestou. Foi como se eu tivesse chegado à beira de um grande rio depois de uma longa caminhada, estando com muita sede e me pusesse a beber sofregamente aquela água aos meus pés.

Quanta beleza, quanto sentimento! Quanta dignidade!

-I-

Já sabia que iria encontrá-lo pela segunda vez.

Seu Geruso é pai de um amigo. Sérgio. Ele costuma vir visitar o filho aqui em São Paulo algumas vezes por ano. Nessa, ele foi intimado a vir para assistir a apresentação do filho, dançarino, num espetáculo em circuito paulista na cidade de Santana de Parnaíba.

Fiquei animada de revê-lo. Já o havia visto uma vez na casa de Sérgio nesse mesmo ano, mas eu o ouvi rapidamente. Ele contou-me sobre sua vida no Piauí, em Salvador e Belo Horizonte e sua vida com Nazinha, sua esposa, seu grande amor. Nesse encontro não consegui ficar muito tempo ouvindo-o, interrompi a conversa pela minha emoção.

Mas agora estava disposta a escutá-lo, estava mais forte emocionalmente e sabia o que iria encontrar nessa viagem a dois. Sentei-me de frente a ele, e num teatro vazio, os artistas e técnicos passando a luz e som, embarquei nesse trem da vida com Seu Geruso.

Incentivado por Sérgio ele começou a contar-me sobre os apelidos de amigos com que eram facilmente adotados pelas pessoas da Parnaíba.

― Pai, fala pra ela sobre os apelidos de seus amigos.

― Ah, não, filho. Isso é bobagem.

― Deixe disso, pai. Fala do Cara de Caneco Machucado. Por que ele tinha esse nome?

― Cara de Caneco Machucado trabalhava no Cine Teatro Eder fazendo grude.

Grude é uma cola preparada com maisena e água, feito um mingau. Ele usava o grude para colar os cartazes anunciando os filmes e as outras atrações. Ele tinha uma cara toda marcada como um caneco de ágata lascado pelo uso.

Na minha terra, meu filho, era assim, bastava um motivo besta qualquer e eles já arrumavam um apelido pra gente. Eu mesmo não quis fazer parte da banda da cidade porque com certeza iriam colocar um apelido em mim.

― E quem era o Maracujá de Gaveta?

― Esse coitado era um sujeito com a cara toda enrugada. Maracujá depois de uma semana na gaveta fica desse jeitinho. Ninguém tinha dó. Olhe, tinha cada apelido... Tinha o Zé Bostinha, esse, porque chegou na festa do clube com o sapato sujo de “caca” de cachorro; tinha o Doca Gaia...

―Doca Gaia? Que diabos é isso?

― Todo Raimundo no nordeste, Sérgio, tem o apelido de Doca. Gaia, porque ele falava pelo fone anunciando as coisas da loja lá da cidade.

― Megafone, o senhor quis dizer.

― Que megafone nada! Fone mesmo e muito gogó. Gritava muito. Foi o primeiro sujeito que vi que ganhou dinheiro com publicidade.

Seu Geruso foi se lembrando de cada um e se divertindo muito enquanto contava. Se lembrou de que foi o primeiro narrador de futebol de Parnaíba.

― Na minha cidade não tinha rádio ainda naquela época, década de 30. A rádio só chegou a Parnaíba graças a dois rapazes, Alcenor Madeira e Roberto Carvalho, filhos de famílias ricas que se encontraram depois de não terem feito muito de importante na vida e aí tiveram a ideia de levar uma rádio para a cidade.

A rádio se chamava PRKK Cirandinha Miudá. Nome de um lugarejo ao lado. A rádio tinha um alcance de uns 10 quilômetros de raio do centro da cidade. Não era muito, mas era uma grande novidade pra nós.

Certo dia atracou no porto de Tutoia, Ma, um navio inglês e o pessoal resolveu promover uma partida com alguns marinheiros e o time da nossa cidade. Queriam transmitir o jogo pelo rádio, mas se esbarraram com o fato de não ter um locutor. Um tio se lembrou que eu costumava ler o jornal para meu pai em voz alta como se estivesse narrando futebol. Meu pai, um pobre pedreiro, flamenguista, só recebia o jornal da capital do Rio de Janeiro, trinta dias depois. Eu tinha que ler a notícia do jogo.

Lá fui eu, que não tinha pretensão nenhuma em ser locutor para narrar o jogo. O dono da rádio foi avisando logo: Para termos o patrocínio você terá que falar direito o nome da empresa. Não é Panair. Mas Pan Air (pan er) Aviação.

Abriram um espaço perto da arquibancada e me instalaram.

Chamaram a banda local de 6 músicos que só tocava dobrado. Mestre Almir era o regente da banda e ficava de animar como um líder de torcida.

Eu, com meus 17 anos, fui o primeiro “speeker” fora da capital.

- II –

Comecei a trabalhar na Souza Cruz em Parnaíba aos 17 ou 18 anos. Comecei simples. Mas logo me convidaram para ser um distribuidor. Para isso eu tinha que fazer um investimento num lote de cigarros. Eu não tinha esse dinheiro todo. O meu chefe fechou um acordo comigo: colocaria a casa de meu pai em garantia e descontaria do meu salário uma parte para pagar o lote.

Na negociação ficou certo de que eu tinha como compromisso dar uma parte do meu dinheiro para meu pai, uma parte para meu irmão que estava estudando fora do Piauí e que queria muito ser engenheiro. Pra mim, podia ser pouco. Não tinha problema.

Negócio aceito, fui para a estrada fazer as vendas.

― E Dona Nazinha, Seu Geruso?

― Já estava começando o namoro com Nazinha. Naquela época nosso namoro era só de olhar. Não tinha esse negócio de pegar na mão ou beijo. Nazinha era uma moça muito miudinha. Bonita.

Mas a vida corria em paralelo. Eu queria coisa melhor. Um ano e meio se passou. Eu achava que naquela empresa eu não iria crescer mais. Cheguei para Nazinha e disse que iria embora tentar a vida em Recife a convite de meu irmão. Ele achou que eu também poderia estudar.

Fizemos um trato de que em dois anos eu voltaria e iriamos nos casar. Ela não botou muita fé nessa minha proposta, mas como não tinha como eu ficar... Eu estava decidido a ir.

Fui!

Cheguei em Recife e fui recebido por meu irmão um tanto desanimado.

― Não deu tempo de te avisar meu irmão, mas a coisa aqui está um pouco devagar.

Contei minhas economias e vi que por um tempo daria para nos arranjar. Ele poderia continuar os seus estudos que eu me arrumaria.

A verdade é que não estava em meu destino prosseguir com os estudos. Nunca quis ser engenheiro ou outra coisa desse gênero. Isso era sonho de meu irmão.

Fui para Salvador. Desanimado, porém, sem desistir, um dia, fiquei sabendo de uma oportunidade de trabalho. Me passaram o endereço e fui até lá. Em frente ao endereço uma fila enorme se formou ao longo da rua. Fiquei de longe olhando aquele movimento e como quem não quer nada, pois não estava muito interessado, fui ao balcão para saber do que se tratava o trabalho.

A primeira pessoa que encontrei para receber informação foi um senhor que havia morado por um tempo em Parnaíba. Ele ficou entusiasmado com a nossa conversa e me passou o endereço do escritório para ir me apresentar. O emprego era meu. Trabalharia na Empresa Aérea Cruzeiro do Sul, no escritório e logo em seguida passaria para o aeroporto.

Passou-se um ano e meio e eu estava esse tempo sem ter tirado as férias a que tinha direito.

― Geruso, pegue suas coisas correndo em casa e volte para pegar o voo para Parnaíba que sai daqui umas duas horas.

Me surpreendi, pois estava para ir em dois anos como marquei com Nazinha. Mas com as férias atrasadas poderia render multa para a companhia. Não adiantava regatear. Entrei no avião e parti. Não deu nem tempo de avisar em Parnaíba que eu estava indo.

Quando cheguei, deixei minhas coisas num local na cidade antes de me dirigir a minha casa. Encontrei um conhecido e perguntei por Nazinha. O amigo me informou que ela estava trabalhando na agência dos Correios. Nesse meio tempo ele também se encontrou com Nazinha e informou a ela que eu estava na cidade.

― Estranho... Geruso não me disse nada que viria. Marcamos só para daqui a dois anos. O que aconteceu?

Eu estava indo vê-la, quando nos encontramos no meio da praça. Só nos olhamos. Foi como o tempo tivesse parado para apenas nos olharmos. Pareceu-me uma eternidade. Não nos beijamos, nem nada. Só olhamo-nos. De repente ela falou como se tivesse saído de um sonho.

― Geruso, você disse que ia voltar e cumpriu sua palavra. Você voltou.

― Eu não disse que ia voltar?

Estávamos meio abobados diante um do outro. Fomos caminhando em direção à casa dos pais dela. Estava disposto a conversar para acertarmos os detalhes do casamento. A conversa com o pai de Nazinha foi sobre tudo, meu trabalho, a vida em Salvador e enfim, sobre o casamento. Mas não de maneira formal. Tratamos naturalmente sobre a data e tudo o mais.

― Quero casar-me com Nazinha no dia do aniversário dela. Dia 12 de junho. Ano que vem (1949) volto para nos casarmos.

― Geruso, antes de irmos para sua casa quero passar na casa de uns amigos que sempre foram bons para mim. Como forma de agradecimento quero lhes comunicar em primeira mão o nosso casamento.

Assim foi feito. E após a troca de notícias fomos para minha casa. Todos ficaram surpresos pela minha presença tão repentina em Parnaíba. Mas logo entenderam tudo e puderam participar da minha alegria e da de Nazinha.

Fiquei uns vinte dias em Parnaíba. Peguei o voo de volta para Salvador rumo ao meu trabalho. Tinha que começar a preparar a chegada dela para daqui um tempo.



-III-

Quase um ano se passou.

Pedi licença para ir me casar e tirei as minhas férias.

Peguei um voo para Parnaíba.

Nazinha queria casar numa igrejinha simples da cidade. Tudo já estava arrumado.

O casamento civil, por concessão de um amigo juiz de paz , foi realizado no período da tarde após a cerimônia religiosa, na igreja, na casa de amigos de Nazinha.

Isso não era comum naquela época. Mas foi um presente para nós.

Quando acabou a cerimônia, Nazinha trocou-se e fomos para o aeroporto.

Ela estava linda. Eu não parava de olhá-la. Dentro do avião todos já haviam sido informados que se tratava de um casal recém-casado. Aplaudiram todos quando entramos no avião.

Eu e Nazinha fomos sentados lado a lado segurando a mão um do outro. E eu não me cansava de olhar para ela.

― Geruso, por que você me olha tanto assim?

― Escute, Nazinha, eu estou surpreso, como uma moça, como você, que nunca saiu de Parnaíba, agora, casa-se com um homem que você mal conhece, se muda para um lugar estranho, deixando a sua família? Você poderia estar preocupada se eu serei um bom homem para você.

― Geruso, preciso lhe falar algo que nunca tive oportunidade de conversar com você... Eu te conheço desde quando éramos crianças. Eu tinha cinco anos e você dez. Você era amigo de meu irmão e costumava ir brincar com ele em minha casa. Eu ficava com os olhinhos compridos só para você. Depois nos encontramos, rapidamente, eu uma adolescente e você já rapazinho. Eu já sentia alguma coisa por você. Mas você, Geruso, ainda não tinha olhos para mim. Meu coração já dizia que você era uma pessoa de bem. E eu nunca duvidei disso. Eu confio em você.

Essa conversa foi como se naquele momento nossos corações se entregassem, enfim. Aquela era a minha mulher.

A caminho de Salvador o voo fazia escala em Fortaleza. Fomos convidados pela tripulação a ficarmos no mesmo hotel.

― Mas como vamos ficar neste hotel com uma diária tão cara? Não tenho condições de pagar por essa hospedagem!

― Seu Geruso, fique tranquilo. É um presente da companhia para o jovem casal.

Ficamos num hotel na Praça do Ferreira. À noite fomos, também, convidados para um jantar oferecido pela companhia. Tudo foi organizado para brindar ao casal recém-casado.

Após o jantar, subimos para o quarto. Nazinha confessou-me que tinha um sonho em assistir a um programa de rádio. A Rádio de Fortaleza era logo ali em frente ao hotel. Rumamos para a rádio a fim de assistirmos um programa. Para nossa surpresa estava se apresentando um cantor já conhecido no nordeste. Nazinha ficou extasiada.

― Mas Seu Geruso e a noite de núpcias? Dona Nazinha estava nervosa?

― Que nada, minha filha! Antes de irmos para a Rádio, subimos ao quarto do hotel. Como tínhamos ainda uma hora... Foram as prévias. Abraçamo-nos tanto que sua roupa de linho se amassou toda. O resto foi na volta da Rádio. Ali naquela hora fizemos nossa primeira filha. Regina.

Esse detalhe tão delicado de uma vida longa de amor, lealdade e dedicação deixou-me muito emocionada. Estava ali a escutá-lo e imaginando essa vida de muita dignidade e que a muitos falta essa virtude. Quantos não se enriqueceriam apenas em ouvi-lo narrar sua história de vida! Quem dera eu pudesse ter a memória de Seu Geruso para reproduzir nessas páginas tantos detalhes a mim relatados. A emoção, por mais que eu tenha me contido, tirou de minha mente e levou para meu coração essa história. E coração é apenas um lugar de sentimentos e não de palavras.

-IV-

Nove meses depois nasceu Regina. Foi muita alegria ter uma filhinha. Nazinha sempre foi uma ótima mãe.

Mas infelizmente, depois de certo tempo, Regina com poucos meses não ia muito bem. Não ganhava peso. Sempre quietinha. Já havíamos ido ao médico e nada de descobrirem o problema. Nazinha preocupada com a menina que estava sempre molinha decidiu que iria para o Parnaíba ficar um tempo na casa da mãe.

Liguei para o gerente da companhia, responsável pela emissão de passagens, pedindo para conseguir uma tão logo fosse possível, para as duas viajarem. Ele imediatamente tomou a decisão de enviar-me, também, convencendo-me que era importante a minha ida. Eu já era gerente de aeroporto, mas não podia me afastar assim de forma sem avisar com antecedência o meu chefe.

― Geruso, de jeito nenhum você vai deixar as duas irem sós. Ligue avisando em casa que um voo parte daqui a pouco e que você irá junto. Eu resolvo isso.

Peguei Nazinha e minha filha em casa e fomos logo para o aeroporto. Mais uma vez voltava de forma abrupta sem avisar a família no Piauí.

Na casa da mãe de Nazinha foi muito tranquilo, pois logo sua mãe tratou de alimentar com papinhas feitas por ela, nossa filha. A menininha ganhou peso em poucos dias; Nazinha já não estava conseguindo alimentá-la só no peito e não conseguia entender o que estava acontecendo. Precisou sua mãe bater o olho e desvendar o mistério da fraqueza da nossa filhinha.

Depois de alguns dias eu precisava voltar. Decidi que Nazinha e Regina ficariam por um tempo em Parnaíba.

― Geruso, de jeito nenhum. Não deixarei você voltar sozinho para Salvador. Iremos juntos! Nossa filha já está bem melhor e agora sei como fazer.

― Então vamos, porque preciso voltar ao trabalho.

A nossa vida ia bem, mas percebi que Nazinha estava ficando triste, amuada. Ela ficava muito tempo sozinha, em casa, com a criança.

Como ela falava muito com sua mãe por telefone e contava sobre sua vida, minha sogra, preocupada, me ligou. Concluiu que o remédio era trazer a irmã de Nazinha. Seria bom para fazer companhia e ajudá-la em casa e com Regina.

Foi uma filha que acolhi. Fui responsável pelos seus estudos e por tudo o mais. Nazinha agora estava feliz. A família estava aumentando.

Logo depois minha mãe ligou:

― Olhe, Geruso, fiquei sabendo que Lurdes está de malas prontas se preparando para ir morar com vocês também.

Chegou Lurdes para ficar o resto de sua vida conosco.

O tempo passou. Já tínhamos mais dois filhos.

Casa cheia, família grande, embora eu sendo muito jovem, conseguia sustentar essa família. Tudo era por minha conta.

― Como é diferente nos dias de hoje, heim, Seu Geruso?

― Eu sempre cuidei de muita gente. Antes de me mudar para Belo Horizonte, recebi um sobrinho para morar comigo com o fim de estudar em Salvador. Minha vida sempre foi assim. Abrindo as portas da minha casa e ajudando como podia.

― E abrindo as portas do coração, não é, Seu Geruso? Mas continue, por favor.

Mais alguns anos se passaram em nossas vidas. Nazinha não engravidava mais. Não entendíamos o porquê. Os médicos não descobriam a causa. Foram feitos exames, mas não acusou nada de anormal.

― Geruso, quando tiver que ser, Deus irá mandar um filho para nós.

Exatamente depois de sete anos nasceu a segunda leva de filhos. Tivemos mais três. Sérgio o mais velho deles.

Aí, eu começava a me preocupar por Nazinha.

― Nazinha, minha filha, acho que você deveria ir a um médico para ver como fazer para não ter mais filhos. Quem sabe tomar algum remédio ou outra coisa? Você já está numa idade que não é bom ter mais filhos. Pode prejudicar sua saúde.

― Geruso, quando Deus quiser não teremos mais.

E realmente foi como Deus queria. Deus dono de nossos destinos e Nazinha dona de meu coração. Não tivemos mais filhos.

Nesse tempo eu viajava muito a trabalho como topógrafo para uma empresa. Fazia medições pelo Brasil para a empresa avaliar o local da construção de hidrelétricas.

Nazinha me acompanhava sempre nas viagens. E sempre levávamos o Sérgio.

Ele próprio e os irmãos o consideram o meu filho predileto.

― E ele é, Seu Geruso?

Seu Geruso deu um sorrisinho de lado e continuou a história.

Depois de um tempo nos mudamos para Belo Horizonte. A irmã de Nazinha, já formada ficou em Salvador.

Lurdes Seguiu conosco.

Você acha que estava encerrada a família? Agora veio morar minha mãe. Ela já estava um pouco adoentada.

-V-

Nesse momento, Seu Geruso um pouco emocionado lembrou-se da música que escuta sempre de Caetano.

Depois de um certo tempo, os filhos criados, alguns casados, Nazinha começou a apresentar sinais de Alzheimer. Eu não havia reparado até uma sobrinha me atentar para a conversa que tivera com ela.

E a ausência foi aumentando.

Minha alegria era vê-la comer goiabada que eu mesmo preparava, colocando um pouco de água para amolecer e dava de colherinha na boca de Nazinha.

Sua irmã também começou com os sintomas de Alzheimer. Eu já não dormia muito. Arrumei no quarto três camas e dormia entre as duas. Às vezes Lurdes chorava e por medo segurava as minhas mãos. Eu dormia assim. Com os olhos abertos.

Os médicos não acreditavam que Nazinha se comunicava comigo, mas meu coração sentia que ela reagia quando eu ia trocá-la.

Lourdes foi-se embora primeiro e logo depois foi Nazinha. Dia 24 de março de 2007.

Tenho seguido minha vida assim. Cuidando dos outros. As pessoas precisam entender, principalmente a família que uns devem ajudar aos outros.

Eu tenho algumas “bicicletas” que eu cuido. Mas isso é uma outra história.

Eu não podia me conter ao final de tantas histórias contadas por Seu Geruso. De forma simples, nada forçada, as palavras iam sendo ditas para mim. Ele sabia que eu prestava atenção e por isso não me poupou detalhes.

Me aproveitei dessa característica dele de conversar bastante e de contar histórias. Acho que ele aprimorou-se indo morar pelas bandas de Minas Gerais. Fui beneficiada pela sua estupenda memória. Reproduzir aqui o que ouvi e senti foi como se revivesse a emoção enquanto estive em sua presença.

Pode parecer banal ao contar uma parte da história de Seu Geruso. Talvez não tenha conseguido passar essa emoção que me propus a passar. Mas também não podia deixá-la guardada dentro de mim.
Talvez não toque o coração de quem a lê, pois como disse antes, as palavras não moram no coração do homem.






















Braga, socorro!!!

Braga,
Vamos ver se você poderá me ajudar.
Estou aqui em minha casa na correria tanto dos afazeres domésticos quanto de trabalhos esporádicos no mundo cultural.
Já descobri que a minha válvula de escape é a arte da escrita. Brincar com as palavras é como se estivesse brincando de três marias quando criança. Cada pedrinha lançada para cima e depois pega no ar com as mãos são palavras que meu coração joga ao vento e minha mente capta para por no papel. Nesse brincar vou me recompondo, me esvaziando e, enfim, me equilibrando.
Você pode pensar, aliás, com certeza não vai pensar diferente disso, mas o ato de criar e reproduzir o que criamos é um exercício de esvaziamento como numa represa que precisamos dar vazão quando as águas atingem certo nível de represamento.
A minha saúde mental depende desse precesso todo.
E devo confessar, Braga, quando o leio, me abasteço, e aí tenho que correr para abrir as comportas da alma. Colocar todas as palavras no papel e depois...Bem, depois é seguir colhendo pedrinhas jogadas para o alto.
O problema, Braga, é que as tarefas do dia a dia vão nos engolfando, nos emaranhando de tal forma que não conseguimos nos desvencilhar logo e fazer aquilo que nos restaura a saúde mental.
Cheguei ao limite. Vou ter que abrir as comportas hoje. Me dei esse ultimato. E conto com você. Com a sua verve que tanto me inspira.
É... cada coisa em seu lugar. Inclusive o que está dentro de minha caixola. Porque à medida em que as palavras vão sendo colocadas no papel vou me sentindo mais leve e o pensamento não encontra emprecilhos para continuar fazendo suas conexões. Que às vezes podem não parecer tão inteligentes mas ventilam a circulação de ideias.
Eu costumo dizer, Braga, que sou uma de suas viúvas. Que por herança você deixou-me suas crônicas. Não sei se você foi bom marido, mas como finado marido tem sido um consolo e inspiração.
Ao receber essa carta, de onde estiver, venha em meu socorro. Transmita-me um pouco de sua poesia, pois o mundo está me deixando triste com sua pouca delicadeza no trato com as pessoas.
Depois, você pode ir se dedicar às suas outras viúvas. Não sou ciumenta. Bom, assim eu acho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Pelo coração eu vou


Meu coração sabe o seu lugar.
O lugar de quem anseia por amar.
Amar no movimento dos céus e mares.
Amor que flui e reflui.
Meu coração não está partido.
Está compartilhado com todas as gentes.
Outro dia se tornou o presente.
E eu me descobri desejando viver intensamente.
Ele palpitava chamando-me baixinho para o acompanhar.
Encontrei iguais ao meu.
Às vezes atropelei, às vezes esperei.
Sentada jamais fiquei.
Busquei aonde tinha o conforto.
Mas não recusei o andar difícil e alternado.
Caminhei com ele, por ele e por todos.
Regenerei-me por ele nas lutas do dia a dia.
E soube escutá-lo.
Agora ele sorri à chegada dos bons ventos.
Novos rumos, novos caminhos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lua em Peixes




A sua sensibilidade estará também mais ativa, favorecendo abordagens mais generosas com a vida e com as pessoas.
O horóscopo de hoje anunciou que minha lua está em Peixes. Para entender melhor sobre isso a Casa onde a LUA se encontra descreve a área na qual as emoções são despertadas; o signo onde a Lua se encontra define a natureza de suas reações emocionais.
Bem, hoje é um daqueles dias que os olhos ficam garoando, o pensamento esvoaçando, as mãos frias pela minha ausência momentânea. Eu estou lá. Lá no alto, pairando sobre mim mesma.
Às vezes o peito solta um suspiro profundo enganado pelo ritmo da respiração regular.
Se eu pudesse estaria no mar, boiando e deixando-me ser levada, simplesmente à deriva. Esperando a lua passear em outra casa.
Mas não adianta ela mudar. Ela está marcada no meu nascimento, não apenas no dia de hoje. Esse peixe está fora d'água me chamando para a lua espiar. Obedientemente, e sabiamente, eu vou.
Não seria eu o que sou, prática e sensível ao mesmo tempo se não desse a atenção a cada casinha de minha vida. Se não entendesse a minha origem em todos os aspectos.
Olho para o céu e percebo que o meu espelho está aqui diante de mim refletido sobre as águas e queimando como fogo cuspido da boca do dragão.
Sol: Áries
Ascendente: Sagitário
Lua: Peixes
Chinês: Dragão
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Fotografias de momentos



Certa vez li sobre a importância de entendermos que a vida é feita de momentos. Tais como fotografias que registramos ao longo de nossas vidas os momentos são para ser vividos, sentidos em sua plenitude, não um marasmo como alguns apregoam com o desejo de frearem o tempo. O tempo é nosso aliado quando passamos a nos conhecer melhor e a usufruir de todo nosso potencial como seres íntegros. De inteiros, completos e ao mesmo tempo construtivos. O que captamos desses momentos vivenciados é o que nossos olhos são capazes de perceberem. E os olhos são os intrumentos da alma para registrarem emoção, prazer ou até mesmo a dor. A dor de ver a dor do outro ou a nossa própria limitação diante da vida. 
Mas somos nós mesmos que escolhemos qual a melhor perspectiva para fotografarmos a vida. Qual o melhor ângulo para registrarmos um perfil.
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sábado, 13 de novembro de 2010

E aí, seu Adoniran?

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Da última vez que nos vimos foi há uma semana em uma viagem pelo circuito cultural paulista para uma apresentação em Valparaíso e Regente Feijó. Ele foi quietinho no banco da frente ao lado do motorista olhando tudo enquanto o carro comia a estrada. Atrás, nós, companheiros de viagem, íamos ora cantando ora dormindo. E ele lá, na sua.
Não olhava para trás. Seguia confiante. Talvez estivesse concentrado para a apresentação logo mais na cidade paulista. 
Não atrevi puxar conversa com ele. Fiquei um pouco intimidada com sua presença na van. Era a primeira vez que eu saía assim em caravana artística. Já o grupo era mais íntimo do Seu Adoniran.
Passamos 3 dias indo de uma cidade a outra. As pessoas nos recebiam bem e chegavam a se emocionar com a presença no palco desse senhorzinho. Ele até se aventurou a dar uma palhinha no final do espetáculo após a apresentação do grupo que estava afinado em suas músicas. Saudosa Maloca, Iracema e As Mariposa contaram com coreografia alegre e percussão aprimorada. 
Não sobrou muito tempo para um papo entre nós. 
Ao final do espetáculo fomos a um bar para relaxar e, claro, jogar conversa fora. Ele não nos acompanhou. Era compreensível na idade dele que quisesse dormir cedo. Afinal, já foi muito boêmio em outros tempos.
Mas nesse final de semana eu não pude ir acompanhando o grupo. Bateu saudade fundo no peito.
Não aguentei e liguei. Vou tentar reproduzir a conversa, embora sem o jeitinho paulistano de falar, assim meio macarrônico. Para uma mineira isso é um pouco difícil. Mas o que importa é o conteúdo.
- E aí, Seu Adoniran? Como estão as coisas?
- Vendo as coisas quadradas.
- Como assim? 
- Um velho de 100 anos como eu, sentado o dia todo num banco de carro, sendo levado de um canto a outro, não poderia ser diferente. Quadrado. Quadrada a cara, quadrada a bunda. Pelo parabrisa do carro só vejo as coisas quadradas.
- E o grupo, Seu Adoniran, tem tratado o senhor bem? Lhe feito companhia? Olha que se não estão eu irei puxar a orelha de cada um deles, viu?
- Bom, isso sim. Eu vou quieto aqui na frente do carro. Eles vão atrás um pouco cansados dessa rotina. Dessa vez não estão nada satisfeitos com o motorista.  Chegou todo cheio de confiança e aborreceu o pessoal. Tentava puxar assunto comigo mas não dei conversa. 
- E a apresentação? O público gostou?
- Ah! Isso sim. Cantaram juntos. Aplaudiram de pé. Quando eu entrei em cena segurando uma vela senti que se emocionavam. Falei umas coisas e eles aplaudiram muito.
Mas bom mesmo é o lanche do camarim. Enquanto o grupo vai se apresentando eu fico sentado lá dentro só saboreando aquilo tudo.
- Quando volta, então, Seu Adoniran?
- Minha filha, "não posso ficá nem mais um minuto sem você..." Tô voltando minha mariposa. É só me esperar.
Assim desliguei o celular feliz. Mas não muito convencida desse chamego dele por mim. Já aprendi que não devemos confiar num coração boêmio. Ele é por demais inconstante. E ademais, D. Matilde não ia gostar dessa intimidade.

domingo, 7 de novembro de 2010

O heroi de tantas histórias

As estradas nos levam sempre a algum lugar. E um deles com certeza é para nossa casa. Mas para JB, João Batista, 54 anos, a estrada já levou-o e continua levando-o a lugares cada vez mais distantes.
Em uma das estradas que tomei coincidiu com as dele. O destino foram as lembranças de outras andanças de JB.
A sua jornada de heroi começou cedo quando ouviu a buzina acionada na boleia de um caminhão. A buzina soou como um canto de sereia vindo das profundezas de sua alma. Hipnotizou-o tanto, que ele, nem saído da infância, mergulhou nesse imenso mundo onírico, tornou-o realidade e embarcou. Arrumou suas trouxinhas e sem se despedir saiu de casa, aos 10 anos, em São João Del Rey, Minas.
De carona em carona chegou à Praia de Ramos no Rio de Janeiro.
Dormiu sob estrelas e castelos mal formados. Por coberta, jornais relatando histórias alheias, inspirando-o a escrever a própria.
Contudo, seu pequeno corpo repleto de orgulho mineiro não temia o destino.
A liberdade era sua nova casa e o sonho de ser motorista de caminhão se transformou em sua nova família.
Bravamente e destemido lutava pela sua sobrevivência no asfalto endurecido pelas pegadas das adversidades da vida. E sua vida foi-se endurecendo nas batalhas épicas do dia-a-dia. Ele ia crescendo, valente e confiante. Fez de tudo um pouco. Um pouco de palhaço de circo e muito de Papai Noel.
Porém, seu ouvidos não o deixavam esquecer de seu sonho. Sempre que ouvia o som da buzina de um caminhão mais tinha forças para persistir na sua jornada.
Após um tempo JB passou a dormir em vagões de trens e se locomovia pelos trilhos à espera da realização de seu destino. Já haviam passado dezesseis anos. O jeito para ganhar a vida agora era ser pintor. Um fato veio interpor-se em seu caminho. Certo dia um colega de profissão roubou seu tênis. À noite, no vagão em que dividiam, enfrentou o colega e terminou lançado para fora do trem em movimento. O "guerreiro" teve que voltar para casa pela primeira vez, depois de muito tempo, ferido, mas não derrotado.
A mãe o recebeu e pôde acalentar mais uma vez seu filho. Acreditou ser possível retê-lo em seu mundo. Porém, tão logo se recuperou, ele seguiu pela estrada rumo ao seu sonho. 
Novamente na estrada passou por tempestades e solidão.
Aprendeu, enfim, desenhado na palma da mão a guiar um caminhão.
Caminhão, ônibus, van.
As estradas foram se estendendo além dos limites do Brasil.
Pelas estradas construiu sua família. Ao todo nove filhos. Seu maior arrependimento - ter se casado quatro vezes e ter deixado, ao se separar da primeira esposa, uma filha de sete anos.
Assim mesmo se diz muito feliz hoje, embora não permita que a rotina da vida interrompa sua jornada. Já comunicou: "Não me avisem de morte. Eu nada poderei fazer."
Seu maior orgulho: tem casa própria, um carrinho e a família esperando por ele. Se sente vitorioso, um heroi.
O que concluo ao ouvi-lo falar-me é que todo heroi deseja chegar a um porto seguro após as lutas diárias.
JB continua levando pessoas pelas estradas. Mas seu companheiro constante, o que ele lamenta muito, encontrou pelas estradas há muito tempo: o cigarro. No entanto, não deu carona às drogas nem às bebidas. Quer que seus filhos saibam disso como exemplo de firmeza de caráter.
A nossa companhia dividida nessa jornada foi chegando ao fim.
Enquanto compartilhávamos a mesma estrada não precisei de outras distrações. Levei comigo um livro, mas não o abri. Ali estava ao meu lado um homem que soube escrever a própria história e a dividiu comigo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dia da partida


Enfim, chegou o dia da partida.
Parte você e eu fico aqui a imaginar quando nos reencontraremos novamente.
Fica uma saudade tão grande no peito para um coração tão pequeno.
Pequeno pela sua presença ter sido tão imensa em minha vida.
Não choro pela sua partida. Choro pelo que não poderei ver. Pelo que não poderei sentir.
Sentir na distância... O que é isso meu Deus?
Os olhos sentem a imagem refletida na alma.
Os ouvidos ouvem o que a música do seu respirar sopra ao meu lado.
Não deixe que a distância afaste o tempo conquistado por nós dois.
Não permita que o sonho de tecermos histórias seja interrompido.
O seu caminhar em sua estrada deixará marcas.
Mas minhas asas planarão sobre você.



Ao meu filho Thiago

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Parição e Resguardo

Pode parecer esdrúxulo, mas algumas mães parem mais de uma vez os mesmos filhos. Acho que a maioria.
Tenho vivenciado a dor do parto várias vezes. E não adianta contá-las, mas com certeza posso enumerar algumas.
Nesse rol de partos não incluo a ida à escola. Isso foi tranquilo. Foi bom, mesmo, ver os filhos irem à escola pela primeira vez.
A primeira, quando meus filhos de fato nasceram. 
Mas as outras seguintes foram bem mais difíceis. Foram diferentes.
Enumerando... A segunda vez foi quando eu me separei e vim para São Paulo. O mais velho estava aqui comigo. Tinha 18 anos. O segundo e o terceiro filhos, de 16 e 15 anos, ficaram com o pai em Salvador. Me enchi de coragem e os deixei, contanto que viessem dentro de um ano morar comigo. A decisão não foi fácil. Foi circunstancial. Dolorida. Foi, inclusive, cercada de uma certa dose de heroísmo. Ouvi o chamado do canto da sereia e mergulhei nas águas da vida. E dá-lhe segura na mão de Deus. Rezei muito à Ele para que me ensinasse a viver nessa nova condição. À propósito, deixe-me esclarecer algo antes que me julguem sentimental demais. Na verdade, eu sou uma pessoa dada à vivenciar ritos de passagens. E como sou muito sensível a mudanças de ciclos de vida, preciso dos ritos para me aperceber delas.  É que eu costumo mergulhar fundo para tentar conhecer o invisível. E olha que é difícil eu me contentar com o raso! Tudo isso requer coragem extra e força de Sansão.
E assim foi. Um dia após o outro. Por um ano eu os esperei e me preparei para recebê-los em minha vida novamente. 
Eles chegaram, enfim. Por dois anos estivemos juntos e de novo, a terceira vez, eles partiram. Os três. E mais uma vez por razões circunstanciais. Foram morar num apartamento perto de mim e eu fui morar numa quitinete. Eu sozinha. Minha vida estava se transformando novamente. Recorri, de novo, ao segure na mão de Deus. Valha-me Deus!!
Nada acontece em minha vida sem que se desarrume a minha casa. Sempre é assim. As coisas da vida são assim.
Foi dolorido demais e envolveu muita mudança, muita aceitação.
E assim, la nave va. Foi. Naveguei por mares agitados por um ano até me casar novamente. 
A transformação continuou dentro de mim. Ondas altas, calmaria. De repente, mas previsível - essa, a terceira vez - o segundo foi embora morar com o pai em Brasília para estudar. Mais uma separação. Mais um parto. Nessas horas costumo ficar muito chorosa. Muito sensível na tentativa de preencher os vazios que eram ocupados pela preocupação com os filhos e que tantas vezes verbalizamos que não os aguentamos mais. Reclamamos do trabalho que nos dão e como seria bom eles terem suas vidas independentes. Mas coração de mãe finge que é altruísta e valente. Que nada! Se não fossem as mães neste mundo com certeza não seria um mundo com emoção. Seria seco por falta de lágrimas e desprovido de uma certa beleza. Ou seja, sem graça.
Bem, agora outro parto. O mais velho foi morar só, aqui mesmo em São Paulo (pelo menos está mais perto) e o terceiro filho está indo morar, também, em Brasília. Este está comigo há uma semana, hospedado em nossa casa antes de ir. É bom ressaltar que meu marido está sendo solidário e compreensivo neste meu momento de resguardo e parição. Parição e resguardo.
O terceiro está sendo parido. E paparicado, também. Entro no quarto em que está dormindo, sinto o seu cheiro no ar. Lavo suas roupas. Ajeito sua cama. Tudo o que fazemos quando preparamos o ambiente para a chegada do novo rebento.
Mas agora quem vai receber este rebento é o mundo. E eu estou preparando o meu coração para entregar ao mundo o meu filho. Assim tem sido esses dois últimos anos. 
E o que tem feito eu? Descoberto novos mares nunca dantes navegados.
Descoberto meu lado artístico, meu lado mulher, meu lado amiga e minha alma.
Estou voltando pra casa. Em busca da minha mãe. A mãe que fui e a mãe que sou.
Redescobri a minha própria mãe. Agora irmã.
Saber que todas nós, mulheres e mães, passamos por esse processo, algumas mais intensamente, outras quase imperceptivelmente, nos tornam mais próximas e mais cúmplices.
Mas meus filhos, sei também, são meus irmãos nesta jornada. Companheiros que me ensinam a caminhar. A não ficar parada no meio do caminho sendo uma coisa só. A eles devo os mares revoltos que me levaram a terras desconhecidas. Ao encontro comigo mesma.
Portanto, obrigada, meus filhos, por terem estado comigo. Sei que continuarão, aonde estiverem.

domingo, 24 de outubro de 2010

Passagem só de ida

Já não aguentava mais a pressão da rotina da casa.
Me encontrava presa, encarcerada pelos modos e costumes daquela velha família. A família cheirava a mofo quadro de natureza morta que o senhor da casa pendurou na parede como melhor expressão de arte que retratava a alma daquela gente.
Essa família de aspecto bolorento e estático não se renovava. Entravam novos membros e todos apodreciam junto aos antigos.
Eu estava lá há vinte anos trabalhando para ela como cozinheira. Meus companheiros, velhas panelas e tachos encardidos e, por amante o fogão carcomido pela ferrugem.
Os hábitos dessa família chegavam ao meu domínio me transmitindo a apatia e desilusão.
O senhor, a senhora, filhos, genros, noras e netos. Um amontoado de sobreviventes do tempo que fugia pelas frestas da janela na saída dos ventos.
Eu sentava no final do dia, a debulhar as favas de feijão nos degraus da porta da cozinha. E a única paisagem que minha vista alcançava  era um pequenino ponto azul no céu entre as copas das árvores do quintal.
Meu sonho ia se perdendo em cada grão de feijão que eu separava.
Um dia eu iria embora dessa casa rumo a um novo destino.
Esse dia estava perto. Eu podia sentir um traço de esperança em meus pensamentos.
Um fato veio impulsionar para que isso acontecesse.
Pela manhã ouvi a campainha da porta. Era o carteiro com um telegrama endereçado a mim.
Para mim? Quem me escrevia? Por que eu? Quem sabia da minha existência?
Abri nervosamente o envelope. Mal consegui ler o que estava escrito.
Embora, sem muito estudo, podia ler. Pouco, é verdade.
Pausadamente fui lendo e custando a acreditar no que estava escrito.
Foi difícil realizar meus serviços na cozinha. Meu coração palpitava. E a todo instante suspirava.

Celina,
Hoje você tem um encontro marcado comigo. Saia de casa às quinze horas. Pegue o ônibus na Praça da Sé rumo à Vila Nova Consciência e desça na parada Paraíso. Estarei lá te esperando. Sua vida vai mudar.

A mensagem não estava assinada. Me preparei para tomar o caminho sugerido. Não pensei mais sobre aquela casa. Juntei meus poucos pertences em uma trouxa e me pus a caminho para a Praça da Sé.
Lá peguei o ônibus indicado no telegrama. A medida que me dirigia para o destino meu coração acelerava.
Cheguei à parada Paraíso conforme combinado. Desci. As pernas bambas mal conseguiam me sustentar em pé.
Fiquei procurando pela pessoa que disse estar me esperando. Não vi ninguém. Ninguém que me procurasse.
Sentei-me na parada e esperei. Enquanto esperava fui pensando nos vinte anos que havia estado naquela casa. As crianças que vi crescerem, se casarem e terem filhos.
Cheguei àquela casa ainda menina. Raquítica e assustada. E cá estava eu assustada e ainda raquítica. Me dei conta que não tinha para onde ir.
As pessoas passavam por mim e olhavam-me como se enxergassem um fantasma. E eu devia ser mesmo. Apenas o espectro de um ser humano em busca de si mesmo.
Após longo período de espera, desanimada e desamparada pensei que devia voltar.
Mas era tarde. Não passava mais aquele ônibus. Ele não fazia a mesma linha de volta. Era uma viagem só de ida. 
Me deixei ficar. Havia de surgir uma saída. Um outro caminho.
Mas quem me chamou? Não sei.
Mas estou livre daquela casa. Pra lá não volto.

Senhora do tempo

A senhora andava arrastando os chinelos pela casa. Andava a providenciar o almoço para a família. Andava de um lado a outro ajeitando as coisas no lugar.
Não sabia, talvez, por onde começar.
Ora arrumava um enfeite sobre a mesa, ora colocava os gatos para fora da sala. Ora lavava alguns poucos copos, ora guardava a louça.
Num momento gritava para falar com alguém da família. Não precisava gritar. Mas sua voz alcançava a vizinhança.
Quem sabe a solidão a visitou mais cedo e ela não entendeu que não precisava gritar para ser ouvida? Mas ela gritava ao invés de falar. Não chegava a pronunciar as palavras ordenadamente na pressa de ser ouvida. O tempo era seu inimigo. 
Panelas, louças, família. 
Gatos, almofadas, vassoura, casa.
Tudo desordenadamente. Tudo atabalhoadamente. 
Seu corpo pesado se arrastava até o quintal. E lá ela ajeitava uma plantinha ali e outra acolá.
Cortou com um corte certeiro as folhas da taioba para refogar no almoço.
O feijão já estava cozinhando na panela de pressão. O chiado da válvula podia ser ouvido em meio à voz alta da senhora. Quem gritava mais? Um para não ser queimado no cozimento e outro para não ser esquecido.
Cebolas picadas, arroz lavado. Família faminta.
E a mesa foi sendo rodeada pelos entes vivos da família.
Cada um sabia seu lugar. Ninguém brigava por eles.
A senhora terminou o almoço de forma abrupta e instantaneamente jogou na cadeira o seu corpo frente à mesa e pô-se a servir a todos.
Nada lembrava a uma família feliz. Os sobreviventes se alimentavam. Se nutriam.
Seus corpos habitados por desejos e frustrações não se saciavam nunca.
A senhora ali a gritar, outros a ouvirem sem reclamar.
O tempo escoava o resto de esperança. 
Almoço posto. Almoço findado.
Cada um para seu lado.
A senhora de volta à pia para ter em sua companhia as louças e panelas.
Suas pernas pesadas, suspiros profundos. Rotina instalada.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Poema aliterado

Professor pede poema apressado.
Exposto e suposto.
De improviso.
Perco-me, procuro e penso.
Preciso tempo para compor o poema.
Poema prescrito, professor, pode perder-se no tempo.
Prefiro procrastinar a persistir no pedido.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Fugindo um pouco do usual

Palavras são alimento da alma. Que tal trocarmos algumas ao sabor de deliciosos bolinhos.
Pode ser num papo com amigos, com a família ou simplesmente conversando consigo mesmo.
Deixe sua imaginação voar. Introduza novos sabores às receitas. Compartilhe conosco!
Vejam o vídeo publicado pela Camilla sobre a receita na Caneca.
http://ce-dabliu-ve.blogspot.com/2010/10/bolo-de-caneca.html
RECEITAS NA CANECA
A brincadeira é que vc bate os ingredientes na própria caneca com um garfo e põe no microondas por 3 minutos. A massa crua é mais mole que a de um bolo normal mas é assim mesmo.
Não aumente a farinha ou terá um bolo duro.

Dicas
- A caneca deve ter capacidade de 300ml.
- A medida de colher é sempre rasa.
- Você pode servir este bolo com coberturas, caldas, castanhas e sorvete. E pode comer quente.

 BOLO DE CANECA
Você prepara na própria caneca que irá consumir e em apenas 3 minutos no microondas.
Ingredientes:
- 1 ovo pequeno
- 4 colheres (sopa) de leite
- 3 colheres (sopa) de óleo
- 2 colheres (sopa) rasas de chocolate em pó
- 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
- 4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
- 1 colher (café) rasa de fermento em pó
Modo de Preparo:
- Coloque o ovo na caneca e bata bem com um garfo.
- Acrescente o óleo, o açúcar, o leite, o chocolate e bata mais.
- Acrescente a farinha e o fermento e mexa delicadamente até incorpar.
- Leve por 3 minutos no microondas na potência máxima.

 BOLO DE CHOCOLATE NA CANECA
(Rende 2 porções)
2 canecas com capacidade de 150 ml
1 gema
6 colheres (sopa) de leite condensado
1 colher (sopa) de manteiga
1 colher (sopa) de leite
2 colheres (sopa) de chocolate em pó

5 colheres (sopa) de farinha de trigo peneirada
1 colher (café) de fermento químico
1 clara batida em neve
Cobertura
Leite condensado misturado com chocolate em pó a gosto
Em uma tigela ponha a gema, o leite condensado, a manteiga, o leite e o chocolate em pó. Bata com batedor de arame vigorosamente por três minutos. Acrescente a farinha de trigo e o fermento, e misture bem. Junte a clara em neve e incorpore à mistura, mexendo com delicadeza.
Distribua nas canecas e asse por 25 minutos, a 180 graus em forno preaquecido. Se preferir, asse-o em forno microondas. Nesse caso, apenas 3 minutos em potência máxima bastam. Retire do forno e, enquanto ainda estiver quente, faça alguns furos com um palito e despeje o leite condensado misturado com o chocolate. Decore como quiser.

 BOLO DE LARANJA NA CANECA
(Rende 1 porção)
1 ovo
3 colheres (sopa) de óleo
4 colheres (sopa) rasas de açúcar
4 colheres (sopa) de suco de laranja
4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
1 colher (café) de fermento químico
Cobertura
2 colheres (sopa) açúcar de confeiteiro
3 colheres (chá) de suco de laranja
Coloque o ovo na caneca e bata com o garfo. Adicione o óleo, o açúcar e o suco de laranja e misture. Agregue a farinha, o fermento e misture até uniformizar. Leve por três minutos ao microondas em potência máxima.
Cobertura
Junte tudo e cubra o bolo.
Dica: Vale trocar o suco de laranja pelo de limão. Mas, para essa substituição, em vez de 4 colheres (sopa) do sumo da laranja, use 2 colheres (sopa) do limão, pois o sabor é mais acentuado.

BOLO DE LEITE DE COCO NA CANECA
(Rende 1 porção)
1 ovo
2 colheres (sopa) de leite de coco
2 colheres (sopa) de leite
3 colheres (sopa) de óleo
4 colheres (sopa) rasas de açúcar
5 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
1 colher (sopa) rasa de coco ralado
1 colher (café) de fermento químico
Cobertura
2 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro
3 colheres (chá) de leite de coco
Coco ralado
Despeje o ovo inteiro na caneca e bata. Em seguida, junte o óleo, o açúcar, o leite de coco e misture bem. Acrescente a farinha, o fermento e mexa até a massa ficar uniforme. Leve por três minutos ao microondas na potência máxima. Cubra o bolo e polvilhe coco ralado.
Dica: Depois de preparar a massa, passe manteiga e polvilhe farinha em outra caneca e despeje a massa. Assim, o doce não gruda e não quebra ao desenformar.

BOLO DE FUBÁ COM GOIABADA NA CANECA

(Rende 1 porção)
1 ovo
3 colheres (sopa) de óleo
4 colheres (sopa) rasas de açúcar
4 colheres (sopa) de leite
2 colheres (sopa) rasas de fubá
4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
1 colher (café) de fermento em pó
Cobertura
2 colheres (sopa) de goiabada
1 colher (sopa) de água
Derrame o ovo na caneca e bata com o garfo. Acrescente o óleo, o açúcar, o leite e o fubá e misture. Coloque a farinha de trigo e o fermento e mexa até dar o ponto. Leve por três minutos no microondas em potência máxima.
Cobertura
Pique a goiabada, junte a água e ponha no microondas por um minuto. Espalhe sobre o bolo.
Dica: Em vez de goiabada, cubra o doce com geléias de sabores diferentes.

 BOLO DE CENOURA DE CANECA
ingredientes
1 cenoura pequena
1 ovo
3 colheres de sopa de oleo de milho
1 pitada de sal
3 colheres de açucar.
4 colheres de sopa rasa de trigo..
cobertura
1 colher de nescau
1/2 colher de manteiga
1 colher de açucar
1 colher de leite
modo de preparo
Raspe a cenoura e corte em pedaços pequenos, coloque no processador, junto com o oleo e o ovo.. bate até a cenoura ficar bem triturada..
Coloque na caneca, o trigo, o açucar e o fermento , junte a cenoura batida e misture bem.. Meu microondas é antigo.. acho que mais forte.. 2 minutos foi o tempo exato..
Cobertura
Misture tudo numa xicara de chá e leve ao microondas por 40 seg. retire ..bata bem deixe esfriar e cobra o bolo..

 CANECA DE PÃO DE QUEIJO
1 ovo pequeno
4 colheres (sopa) de leite
3 colheres (sopa) de oléo
1 pitada de sal
4 colheres (sopa) de queijo parmesão ralado
4  colheres (sopa) de polvilho azedo
1 colher (café) de fermento em pó
margarina para untar
Modo de preparo:
Bata todos os ingredientes no liquidificador, e unte a caneca com margarina, coloque esta mistura até a metade da altura da caneca e leve no microondas por 3 minutos em potência media retire e polvilhe o queijo parmesão para decorar.
Rendimento: 2 canecas

 CANECA DE BOLO SALGADO:
1 ovo pequeno
4 colheres (sopa) de leite
3 colheres (sopa) óleo
4 colheres (sopa) de farinha de trigo
1 colher (café) de fermento em pó
1 pitada de sal
1 fatia de queijo mussarela
1 fatia de peito de peru
½ tomate picado sem semente
orégano e queijo parmesão para decorar
Modo de preparo:
Misture todos os ingredientes menos a decoração numa caneca de 300 ml, misture bem e leve no microondas em potência alta por 3 minutos e decore com orégano e queijo parmesão e folhas de salsinha.
Rendimento: 1 caneca

 CANECA DE PUDIM DE LEITE CONDENSADO
1 lata de leite condensado
1 e ½ lata de leite
3 ovos
gotas de baunilha para perfumar
Calda:
6 colheres (de sopa) de açúcar
6 colheres(de sopa) de água
Modo de preparo:
Em um recipiente misture os ingredientes do pudim (pode ser manual ou no liquidificador) misture bem os ingredientes e reserve.
Para calda coloque o açúcar e água, leve ao microondas por 3 minutos em potência alta, coloque a calda na caneca e coloque a mistura na metade da caneca, faça isso em 4 canecas, leve uma de cada vez ao microondas por 3 minutos em potência alta.
Decore com um pouco de calda.
Rendimento: 4 canecas

 CANECA DE PETIT GATEAU
¾ lata de leite condensado
¾ caixa de creme de leite
3 ovos pequenos
½ lata de chocolate em pó
2 colheres (sopa) de farinha de trigo
1 colher (café) bem rasa de fermento em pó
margarina para untar
Ganache:
100 g de chocolate ao leite
70 ml de creme de leite
1 saco de confeitar descartável
Decoração:
4 bolas de sorvete
folhas de hortelã e calda de chocolate
Modo de preparo:
Bata  todos os ingredientes em um liquidificador, coloque a mistura ate a metade da altura da caneca, já untada com margarina, e com o saco de confeitar coloque no meio da massa crua um pouco do ganache, leve ao microondas por 3 minutos, sirva com uma bola de sorvete de creme e folhas de hortelã.
Rendimento: 4 canecas