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sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu em mim mesma

Olho para a moça e lentamente pego uma escova e começo a lhe pentear os cabelos. Ela me devolve um sorriso agradecida e extasiada por esse gesto.
Essa aproximação é cheia de tatos e recuos. É devagar e profunda. Curiosamente noto algumas manchas ao redor de sua imagem. Não. Não são delas. São do espelho velho que estrategicamente foi posto ali como a arquitetar por anos esse encontro. Nada lhe escapa, porém. Ele ansiosamente promoveu esse encontro a fim de nos revelarmos.
Volto minha atenção para a moça. Acaricio seu pescoço, riscas lhe saltam como linhas do tempo com uma longa história escrita nelas. Leio cada palavra, e não me surpreendo com o que elas me dizem. São sinais de uma vida inteira. Me encho de compaixão por cada uma delas.
A moça compreende e não se incomoda de tê-las ali. Sorri-me resignada pela inexorabilidade dos fatos da vida.
Percebo um vulto que passa por detrás de mim. A moça se assusta. Eu sustento o olhar em seu olhar como a encorajá-la a permanecer ali comigo. Ela volta a se acalmar. Digo-lhe, é apenas um intruso que quer nos furtar desse momento. Não temas. Olhamo-nos ternamente.
Deixamo-nos ficar assim por uns bons minutos. O quanto nossos pensamentos estiverem surfando na mesma onda estaremos presentes uma na outra.
Por um instante algo me dispersa e ela se aflige a me chamar de volta. Por que partiu? Não parti. Não te deixarei. Eu estou aqui. Você é parte de mim. Sempre estivemos aqui. E eu coloco minhas mãos no lado esquerdo de meu peito para dizer-lhe que ela mora em mim.
Então, com seu mais encantador sorriso, e um leve tique nervoso que só eu conheço, ela se entrega a mim.
Não posso congelar sua imagem neste espelho. Eu preciso acompanhar você, seu desenvolvimento, seu envelhecimento.
O espelho será sempre nossa testemunha. Ele nos garante a vida. E a vida como num balanço, nos leva pra frente, e na volta, uma suave brisa nos acolhe para continuarmos a caminhar.
Preciso me ausentar agora. Um pouco constrangida sinalizo meu afastamento revelando uma sensação de leve desconforto pelo tempo que estamos assim. Colecionarei lembranças e histórias e voltarei para lhe mostrar.
Encaro-a firme, decidida a me despedir. Voltarei logo, não se preocupe. Ela me compreende e fecha os olhos para não ver-me partir.

Um comentário:

  1. Olá Roberta,
    Fiquei lisonjeada com sua visita e por seguir meu blog, muito obrigada.
    Parabéns pelo blog e excelentes textos.
    Lerei com calma depois.
    Indico dois blogs que abordam literatura e talvez vc goste: www.literatema.blogspot.com
    www.criacoesdecida.blogspot.com
    O primeiro é do meu irmão e o segundo de uma grande amiga.
    Grande abraço,

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